terça-feira, 17 de junho de 2008

Agrafador

À medida que escrevo estas linhas pergunto-me se, de facto,
As escrevo.
Apesar de ser inegável este rabiscar frenético do papel,
Questiono-me até que ponto o papel existe.
Até que ponto o lápis existe.
Até que ponto quem lê existe.
Até que ponto pontos, vírgulas, sinais
E outros instantes finais e iniciais,
Existem.
Ahh, esta raiva de nada me garantir que sou mais do que ideias!
Que tudo o que me rodeia são pensamentos abstractos.
Nada, criado por um vazio de Nada.
A tristeza de saber que todos os Outros são imaginados por mim,
Que tenho de mentir toda a Realidade!
A angústia de tudo ser meu!
De ser Rei, Senhor
De ser Deus!
De assumir em mim todo o poder criador!
E o tédio...O tédio de saber tudo, não sabendo Nada!
A abulia de não precisar de sistemas,
Teorias, filosofias, arte, ciência,
Para compreender.
Sinto-me alienado. Não, não me sinto!
Concebo-me mentalmente alienado!
Sou um produto à venda de mim mesmo!
Sou carne e nervos e sangue,
Expostos numa vitrine sem Existência!
Todo este Mundo é meu!
Mas está vazio.

Friendship

Amigos...

Cada um de nós joga uma partida a pares de um jogo infindável.
Entre tácticas, estratégias, cálculos, fórmulas mentalmente deduzidas,
Movemo-nos quais peças num jogo de xadrez.

Entre 64 hipóteses, lutamos numa duplicidade de cores.
Alternamos entre o preto e branco,
Enquanto o vermelho raia nos nossos olhos.

Num quadrado, amamo-nos e odiamo-nos mutuamente.
Somos peças de marfim polido e brilhante,
Produto mental do Universo.

Entre cavalos, reis, torres e bispos.
Comemo-nos,
Devoramo-nos uns aos outros num vórtice carnal.

Há peões que correm, enfrentando o Caminho para a ascensão!
Rainhas que se prostituem!
Há mil e uma hipóteses!

Mas, felizmente,
Alguém deixou cair o tabuleiro.