quarta-feira, 30 de abril de 2008

Lágrimas

Quantas vezes já me perdi em frente desta janela que tanto amo?
Perdi-me em pormenores.
Menores, maiores, mas perdi-me.
Como se perde toda a consciência sempre que deixamos que tal aconteça.

Perdi-me em cada gota de chuva que cai ante os meus olhos.
Cada pedaço meu estilhaçou-se noutros mil e dividiu-se pelo infinito de todas as Realidades.
Todas as verdades de cada pingo que toca esta janela com um baque sonoro,
Tão sonoro como o silêncio retumbante da minha alma.

Cada pingo, como cada batimento deste coração que me foge a todo o momento,
Para aqui, para longe, para todo o lado onde não possa ou queira estar.
Cada pingo, como cada oscilação de alma que me foge a todo o momento,
Para onde as almas se encontram.

Cada pingo, como cada lágrima que imaterialmente cai sobre cada palavra que penso.
Cada lágrima, libertando-me de tudo, de mim mesmo.

Menos de algo.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Surreal

Becos, fundos, sinais, profundos,
Vida, infinito, gotas, perda,
Paz, libertação, inacção,
Volatilização, almas.

Inexpressivo sentimento atroz,
Veloz, sem fúria descanso morte, acordar deitar,
Morrer de novo e viver outra vez outra vida.
Agora, nunca, já até sempre que é sempre tempo de não sermos nada,
Nem mesmo aquilo que não queremos que os outro sejam por nós!

Não temos nada, nem mesmo voz para gritar nestas alturas
Em que temos de saltar de prédios altos, que mal se elevam do chão.
Somos largados por nós mesmos a metros incontáveis de simples construções de nós próprios.
Sufoco, prisão, luz, liberdade,
Caleidoscópio de cores e sensações.


Abstracto, nulo, ou inverso que nada é se não fora,
Que já passou, enfim que interessa isso, não vale a pena,
Morramos todos e tudo morra agora que já não há mais segundos para gastar da nossa conta que nos foge sem medo de si mesma, de nós ou daquelas árvores.

Pecado, olhar, poder,
Passo, revolta, liberdade, fim.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Poema

Um dia,
Escrevi um poema chamado Poema.
Um conjunto animado de estrofes e versos,
Sem nenhum outro conceito,
Que não fosse o de poema.

Contextualização organizada, de palavras que me sobem à cabeça.
Cria-se algo que me ultrapassa a mim mesmo.
Ligações imateriais surgem nesta folha de papel,
Unindo palavras, ideias, realidade
E Sonho.

Sonho, pois a concistência do Mundo,
Não é suficiente para suportar poemas.
Porque só o sonho poético tem concistência,
Para sofrer reinvenção constante.

Mas, acima de tudo,
Escrevi um Poema chamado poema.

domingo, 6 de abril de 2008

Mostruário

Em mais uma daquelas viagens inesperadas,
Que a mente se obriga forçosamente a ter.
Que me levam para longe de qualquer coisa a que eu, e muito mais gente estranhamente,
Continua a chamar ser,
Encontro algum escândalo e furor.

Mas nada de muito especial, ora essa.
Fosse eu preocupar-me com isso, perdia-me a mim,
E à minha capacidade lógica de condensar tudo dentro de momentos brilhantes,
Como o ouro que reluz nos cantos negros da imaginação.

Só preocupações excessivas com temas demasiado actuais,
E que, por ímpeto próprio, ou por estranha forma que alguém lhes dá, se tornam brutalmente banais.
Pena que o ontem, o agora e o depois não sejam já...
Assim resolvia-se todo o mistério da existência que vamos existindo. Curiosamente, sem termos existência nenhuma.

Afinal, porque é que tudo acontece? Porque é que surgem encadeamentos na acção,
Voluntária ou involuntariamente?
Porque é que somos mostruários para toda a sociedade? Qual é a necessidade de andarmos expostos, nus, em carne viva ao olhos de todos os que nos prescutam?

Melhor,
porque é que olhamos?

Riso

Através da janela que se abre à minha frente,
Qual separação etérea entre mim mesmo e a realidade que vejo, mas não olho,
Há mil e uma imagens a discorrerem.
Todas ao mesmo tempo.
Todas paradas e em movimento constante, sem fim, sem nexo.

Tudo se mexe para todo o lado.
Sem sentido, sem vontade, sem saudade,
Do pensamento entretanto esquecido num canto qualquer,
De uma gaveta qualquer, daquele móvel antigo.

Ahh sim, antigo como o tempo. Antigo como as sílabas saídas não se sabe de onde.
Antigo como a inexistência de conceitos próprios para exprimir uma realidade,
Indefinível por tons de voz, de cor, de sabor.

Rio-me...
Rio-me de toda a tristeza da sociedade.
Da mediocridade de certos e determinados actos involuntários.
Desato às gargalhadas com tentativas pseudo-frustradas de vender a alma!
Ahh, já tenho lágrimas nos olhos, de tanto ver o que à minha frente discorre.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Céu Estrelado

Em tantas nuvens que vejo passar no céu,
E no interior da minha alma,
Vejo-me sempre diferente e límpido,
Como o Cristal negro que brilha e pulsa dentro de mim.

A cada momento passo os dedos pelo etéreo cosmos que reside no fulgor que me percorre.
Penso força e medo ao mesmo tempo.
Momento e futuro, separados por uma barreira de fogo densa.
Mas leve,
Tão leve, que ao menor toque da destruição brutal do Mundo,
Deste ou de outro que se atrever a tal,
Se pode apagar.

E cada lágrima caída,
É um pensar perdido algures entre o consciente,
E a consciência do real inexistente.
Só o meu Cristal existe dentro de mim.
Mais negro e brilhante,
Que qualquer céu estrelado.