domingo, 23 de março de 2008

Malabarismo

Caminhando nesta rua vazia de sensibilidade humanamente palpável,
Cheia de erros, desprezível, verdadeiramente detestável,
Sem novos sinais que apontem a saída, a entrada,
A nobre escada da vida vivida.

Curiosa esta rua.
Sempre cheia de soluções, de gente,
Da clarividente matéria em que flutuam as Razões.
E que, estupidamente, está tão vazia,
Como o Vazio inexplicável, do sentimento que atrofia.

Ahh, mas que regressão linear, potencial,
Potencialmente fatal, destas mentes denegridas pelo suor carnal,
Que lhes tapa a vista, que lhes tira o previlégio de ser gente.
De, pelo menos, ser diferente daquilo a que costumamente nos habituámos,
Sendo ausente.

Porque, no fundo, há presença em excesso.
Presente, presentificadamente, a realidade teima em não aparecer num tom diverso.
Fica tudo agarrado a uma concepção perdida,
Imerecida, esquecida, da pseudo-realidade, que nunca foi, existiu, e deixou de ser.
Quer-se elevação espirtual, diferença,
Mudança, em todo o carácter que possa ser radical.
Pretende-se liberdade sexual, libertar essas fúrias contidas em produtividade,
Em fazer perder a saudade do tempo que já lá vai.

Abram-se de uma vez essas mentes!
Verta-se toda essa imaginação, essa cor,
Esse amor, essa vontade de mudar.
Basta de dizer só sim e não,
Urge sentir o ar fresco da manhã,
E levantar os olhos.

sábado, 1 de março de 2008

Livro

Num daqueles passeios habituais,
Que toda a gente dá ao Sol,
Menos eu, que aprecio vivamente passear à chuva,
Lembrei-me de deixar descansar a existência,
E sentar-me onde apeteceu à minha mente.

Virei, então, uma página do livro,
E a História discorreu à frente dos meus olhos.
Um oferecer brutal,
Carnal,
Uma dose de amor completamente desnecessário,
Uma filha-da-puta de uma coisa qualquer que só tem explicação lógica!
Numérica!
E em valores hexadecimais, exceptuando os casos em que contamos como nos apetece!

Mas que merda, toda esta dose de pornografia barata que para aqui se vende! Todos os sentimentos dúbios, nulos, expressos onde convém e não convém!
Melhor ainda, que vá para o diabo tudo aquilo que é expresso! Que vá para a consciência, para o ser, tudo aquilo que não devia ser exposto de maneira desregrada, sem força, vitalidade, sanidade, só porque é bit, bite (que no fundo não é nada)!


Que me desapareça da frente,
De vez,
Toda esta parafernália de coisas que teimam em saltar-me para os olhos,
Aos molhos, sempre em doses monstruosas de afecto insano!

Ahhh, mas que nojo! Mas que raiva de tudo aquilo que não tem base e sustentação física, firme,
concreta, ou então abstracta, que se foda, mas que tenha sustentação!

Entretanto, decidi virar a página do livro,
Porque estava farto.

Mundos

Portanto,
Após ponderar seriamente, mas obviamente sem muita seriedade,
Todas as variáveis que me foram apresentadas, metidas dentro de um livro velho, fechado
Mas que, por pura estupidez ou falta de vontade (tempo, digo eu, tempo),
Ninguém ainda se dignou a abrir, a folhear, a cheirar, a Sentir, ou a querer,
Cheguei à conclusão que me quero matar.

Sim, não vejo necessidade nenhuma de continuar a existir.
Tendo em conta a passagem leviana que sou,
Um simples roçar, raro, do Mundo que nunca foi meu,
Decido simplesmente matar-me.

Sem nenhuma angústia,
Problema,
Necessidade,
Impulso,
Fúria, raiva, ou mesmo vontade.
Nada me leva a querer matar-me.

O que, de certa maneira,
Até faz algum sentido, se olharmos este assunto debaixo de um sol escaldante,
Afogados em certezas acerca da realidade que nos rodeia.
Se examinarmos a questão de multiplos e multicolores prismas,
Podemos obter mais soluções do que a minha, seguramente,
Mas não adiantam nada para este problema.

Vejamos,
Estamos perante uma equação matemática,
Onde incorrigivelmente, o resultado é sempre o mesmo,
Tirando as vezes em que me apetece que assim não seja.

Porque,
No meu Mundo a matemática não faz sentido,
Assim com a química, a álgebra e toda a física estelar, intra exo e poliplanetária.
Só faz sentido matar-me.

Ora, curiosamente, eu não vivo no meu Mundo.
Vou vivendo nos mundos que vou encontrando por aí,
Perdidos,
Espalhados,
Mas sempre novos para voltarem a ser usados para múltiplas funções.
Huum, em última análise sou um vagabundo de mundos.

E, precisamente por essa razão,
Que, ao fim ao cabo, não tem cabimento nenhum,
Vou matar-me.