sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Enxurrada espiritual

Alta vai a luz do dia, imanente alegria,
Abro os olhos, vejo o mar, que a consciência arrelia.

Sem saber de nada, a permanente evolução.
Encerra amor, luta, medo lento e satisfação.

Nula é a acção, enfim, está tanto frio lá fora,
Paz de espírito que atormenta, e eu não vejo a Hora.

Nem à luz de verbos incandescentes, erros vagos imorais,
Persigo a sensatez de ser, escrita nos sinais.
Mas quem precisa de saber de tudo,
De olhar para tudo, de lutar por tudo,
De um ano novo num entrudo.

De celebrar a criação que no fim é parte de nada,
De estar só mais do que tudo, perdido na enxurrada.
Alheada a minha vontade superior de ser,
Enaltece o que está bem,
Vive e deixa morrer.

E não me interessam nem intrigas nem pressupostos banais,
De amor, de silêncio, vazios, sem qualquer cor.
Ideias nefastos, sem nexo aparente,
Olho o Mundo, sem sentido, material, indiferente.
Nem o Sol, nem a Chuva, nem a Noite, nem o Dia,
Me confortam a alma, nem há Luz na Alegria.

Nem de mim me ria, nem de ser Homem, nem ser Mulher,
Solidão existêncial, no fundo ninguém me quer.
Ou sou mais eu que não quero, que no fundo ninguém me tenha,
Sou mais eu que me abstenho de ser algo que se entranha
Sou mais eu que me enquadro bem longe de toda a dor,
Vivo a fingir no luto, sentir vulgo sem pudor.
E sou eu que me julgo, sou eu quem dita as minha leis,
Sou eu quem me crio, e me escrevo em papéis.

Sem medo nenhum, invento-me constantemente,
Sou sempre sozinho, mais do que louco sou doente.
E também a consciência me deixa só, ao meu cuidado,
Sou uno comigo mesmo,
Ser único e consagrado.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Posso?

Será que posso fazer aqui algo completamente irreal,
Banal,
Diferente do comum habitual,
A que nos habituámos,
Por puro desleixe espiritual, psíquico, lógico e filosofal,
Por pura vontade de não fazer rigorosamente nada de especial,
De subtil ou de paranomal,
Só por querer evolução desregradamente limpa de qualquer perconceito material,
Só por ter uma vontade carnal de não querer fazer qualquer tipo de coisa,
Que não seja entregar-me inteiro, universal, a esta louca tarefa?

Será que posso?

2 da Manhã

São 2 da Manhã.
Mais do que tempo para o Sol nascer.
Mais do que tempo para alguma luz brotar de algum recanto escondido.
Mais do que tempo,
Para ser tempo de alguma coisa.

Só por serem estas horas,
Já dá vontade não sei de quê.
De qualquer coisa amorfa, nula, sem sentido algum,
Algo reconfortante, comum,
Algo distante, perdão, algo nenhum.

Pede-me o espírito que oiça o vento lá fora.
Mas para quê?
Já me chega ouvir o vento dentro de mim.
É extremamente suficiente ouvir as melodias que oiço,
Repetidas vezes, sem fim à vista.
Desarmada,
A consciência retira-se para parte incerta,
Distante de mim mesmo, ou de outros aos quais me vou parecendo,
Totalmente ignóbil.

Bela altura esta, não haja dúvida.
Ao menos aqui, neste tempo, meio espaço levitante,
Nada me impede de pensar sem qualquer dor,
Nada me impede de ser abstracto para mim mesmo
E sentar-me onde bem me apeteça.

Nem as leis morais,
Cuja fundamental verdade real,
Me estranham, ou parecem minimamente anormais.
Não crio qualquer espécie de problema,
Em deixar perder-me nesta corrente.

Apenas tenho a certeza,
De que o Tempo não me deixa em paz.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Confusão

Ao passear-me por esses antros de amor sem fim,
Deparo-me, intrigado,
Em quantas luzes brilham por todo o lado,
Trazendo escuridão e temor.

Enfim...
Quebranta-se a paz de espírito.
Num louco correr de nada.
Por nada.
Sem nada.
Só danças voláteis sobre almas,
Inabitadas.

Cansadas e permanentemente sufocadas,
Na necessidade material de iconizar o sentimento.
Um superficialidade astuta, demente,
Decorrente da luz.

Possa eu não ser,
Nem uma simples molécula.
Possa eu abster-me do todo material,
Chorar todas as lágrimas de Fogo,
Que me queimam a face, a alma!
Só porque quero, Só porque gosto!
Possa eu não ter calma nenhuma, nunca!
Nem por um instante deixar de Gritar,
De Sentir, de Sonhar, de Amar!
Possa eu não olhar, não ver,
Não me deixar cair em redundâncias inúteis,
Vazias.

Ahh sim, é isso que eu quero...
Um céu estrelado sobre mim,
Em mim,
Só para mim...

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Obtuso

Esquadrinhava, a par e passo, memórias etéreas,
Que de perdidas, têm o prazer de viver.
Ao louco saber, que me assalta, a cada esquina,
Cada ângulo, cada recta que me corta o pensamento infinito.
Perdido, perdida, perdidamente.

Matemáticas dúbias despoletam reacções anárquicas,
De calculismo regrado, puro, nulo na vida.
Passo ao rectangular pedaço que se desdobra, disforme,
Enorme peça e relógio; belo tempo que se desfia,
Nas minhas mãos,
Sem mim.

A clara água régia, regida, por quem vago direito teve
De a manter inóspita,
Calma à necessidade de conhecimento.

Revejo-me em tudo,
Qual circunferência que rola nos aros inconfináveis,
De uma vida maior, melhor,
Superior na vã ascendência, cadente elevação espiritual.

Triângulos, mais que a mim me possam saber,
Tão inumeramente perfeitos,
Em concepção na multidimensão da mente.

Volto a mim,
A Casa.
E sinto-me obtuso.