domingo, 30 de dezembro de 2007

Vôo duplo


A eternidade que se perpétua,
Em cada momento atroz,
Que varre a consciência,
E te arrasta para o inóspito lugar de Ser.

A bala que voa,
Imaterial no desejo de saber, sem saber como,
É livre,
Sempre livre na fúria,
Veloz, Intensamente,
Procura o caminho imerso,
Olhando o Sol que brilha no mar.

Ah, sim...
Poder amar e pensar,
Como quem se reflecte na Luz,
Como que se perde em si,
Como quem vê o Mundo.

Ser livre,
Escrevendo-se a si mesmo,
Em pequenas folhas,
Que nem o pensamento recorda.

Ser livre,
Para não ser ninguém,
E ser tudo.

Relativamente

No encantos do que olhas,
Do que vês sem pensar,
Ou acreditar que haja nexo na essência,
Descobres.

Um dia,
A luz da treva tomou-te.
Ah sim, a tristeza de não seres mais
Do que és...

Mas quem és tu?
E ao não saberes já respondes...

Ouves o relógio que te bate aos ouvidos,
Aquela cadência lógica,
Um sem fim de melodia inexorável,
Uma chama,
Fria,
Férrea,
Feroz de tanto espanto,
Que pareceu guardar.

Sim, tens de enfrentar...
Ninguém é mais do que ser,
Do que o pensar,
Que cria,
O fantástico mundo do criar.


Já sentes?
Arrepia não é?
O medo de poder cair no vazio,
De não ser mais do que ser.
O prazer de ser só somente,
E resplandecer de pureza simples,
Como um cristal nu,
Brilhante,
Num ribombante prisma de cor.
Sem dor,
Nem mágoa de pensar,
Sendo tu,
Não sendo ninguém.

Mas espera,
Olha à tua volta.
O vácuo material do nada envolve-te,
Sabendo-te uno,
No diurno sentido de amares
Sem querer.

É, pois, aí,
Que tudo reside.
Em seres nada,
No nada que é o não ser,
De abraçar o amor,
Até que se derreta num só hino,
Que te extravasa deste mundo cerrado,
Para onde contemplar é fluir.

Porque,
Afinal,
Ninguém é para si.
Tudo é em si.

Revolução


Ideais perdidos.
Praias longínquas,
Demasiado perto para alguém as alcançar.

Quem somos afinal?
Partículas de um nada finito,
Que se perde na vastidão do pensar.
A loucura branda e calma,
Do pôr-do-sol,
No azul da consciência.

Então, para quê questionar?
Para quê perder o tempo,
Que não se esgota nas areias do segundo?

Talvez,
Porque o fim do mundo não começa,
No material ponto de existência.
Ele é filho da severa inconsciência,
De ambicionar e não querer.

Então, porque existimos?

Não sei leitor.

Afinal,
Não saber é que me dá a existência.

Recordas o tempo que perdeste

Recordas o tempo que perdeste,
As vezes que não venceste,
O poder que se escapou.

Alguém o levou ?

Sim.
Aquele instante sem fim,
Que te consome,
Que te queima,
Que te ouve gritares a melodia alada.

Fada do país do não voltar.
Porquê sarar a ferida que se abriu,
Ninguém o decidiu,
Ou pediu.

Foste tu,
Levanta-te,
Caminha como nunca o fizeste,
Corre por onde a mente te levar,
Liberta-te.

Sente o calor do vento frio na face,
Sobe até aos pináculos da consciência
Daqueles que vês através do vidro humano.

Não há nada.
Só pó na estrada.

Ou talvez mais...

Talvez nem tudo seja assim,
Talvez possas querer,
Talvez possas ser toda a força que te consome.

Ah sim,
Ninguém te impede,
Ninguém se sobrepõe à centelha que brilha em ti.

Grita,
Dá tudo o que podes.
Porque no fim...
No fim, nada ama,
Nada encontra o centro da partícula perdida.
Ninguém é para além da história esquecida.

Amor

O ódio eterno perpetua-se,
No ciclo desesperado...

Mal amada foi
A pena que se libertou,
E cravou as doces linhas
No âmago do ser.


Ai! Felicidade de não querer!
Atrai o poder negro da falta de sentimento.
Gera-te,
Cresce,
Morre para poderes nascer.


Afinal...
Quem ama?
Ninguém sente nenhuma chama!


Se minto?
Mas para quê?
Para esconder o não saber,
Nas horas redondas do sentimento?


Não, que as leve o vento!
Que seja o portador,
Da discórdia vindoura,
Do viver,
Um não-sei quê de alegria.


Portanto,
Se penso,
Se descubro,
Se embalo o encanto,
Ele consome-me.
Não se solta,
Não te deixa respirar,
No sufoco que aperta,
A luz do puro ser.


Mas não sei...
E acho-me contente com isso.
Pois, de que vale idealizar,
Criar pontes,
Mover montes,
Erguer túmulos perdidos na consciência do ser?


Sim, também concordo leitor.
Ninguém cria quem criou a dor.
Ou se calhar gera...


Mas não nos detenhamos na reflexão profunda.
Para quê?
Para saber que existe um mundo de nada,
No núcleo da centelha humana da compreensão?
Deixemos os átomos guiarem-nos.


Sim leitor, o átomo.


Creia-me não há nada para além disso.
Nem amores profundos,
Nem ódios sem fundos,
Nem criação nocturna de querer.


Mas levanta-se o espírito.
Onde é que se enquadram
Os pianos da música perdida,
No confins do nada?


Talvez numa espada,
Ou na simples vontade de mudar o mundo.
Mas não há segundo!
Não há nada!


Nem o simples beijar,
Que complexa a história,
De acreditar cegamente,
Em pressupostos banais,
Doenças vitais,
Que afligem,
E libertam da realidade,
Quem não suporta o peso da saudade.


Todos tornamos ao início.
À uniforme condição,
De nada ser e ser tudo.
Ser um fruto escondido,
Na árvore que murcha.


Para quê?
Porquê?
Como, Onde, Quando?


Não interessa!
Antes sacudir a fúria de ser pensando,
E amar.


Sim, entrega-te.
Não tenhas medo.
Recear é nunca ter conseguido,
É sofrer um corte na alma.


Não busques,
Pensa...
Ou antes, não penses.
Não questiones o porquê.


Não tenhas medo.


E sabes porquê?


Porque está lá alguém para te agarrar.
Para sentir que afinal
Vale a pena não ser nada.


Para ser tudo...